Mostrando postagens com marcador Bíblia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bíblia. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de julho de 2020

CAMELO E AGULHA: O QUE JESUS REALMENTE QUERIA FALAR?



Por Jefferson Rodrigues

Acredito que o leitor já tenha tido contato com as palavras de Jesus direcionadas a um jovem rico que, teimosamente, colocava seu coração sobre as riquezas que tinha. O texto ao qual nos referimos encontra-se no evangelho de Mateus, Marcos e Lucas. Contudo, para efeito de compreensão nos deteremos na perícope que se apresenta em Mateus 19.16-26, com enfoque principal na incógnita citação de Jesus registrada no versículo 24 que diz: “E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus”. Diante desta afirmação, nos cabe perguntar: o que Jesus, de fato, quis dizer com esta expressão? Será que ele falou de agulha e camelo no sentido literal ou usou apenas de uma figura de linguagem?
I.                   AS VÁRIAS INTERPRETAÇÕES SOBRE ESTE TEXTO
a)                 Uma brecha na cidade de Jerusalém. É bem possível que o leitor já tenha se deparado com alguma explicação alegórica sobre esse texto, especialmente, a mais famosa delas, atribuída originalmente a Tomás de Aquino. Tal teoria busca explicar esse texto a partir de uma visão em que o termo “fundo de agulha” não se refere de fato a uma agulha de uso costumeiro. Segundo esta interpretação, seria uma brecha existente em muralhas das cidades antigas pelas quais os viajantes que chegassem antes do amanhecer poderiam entrar com seus animais. Em virtude dos viajentes chegarem a noite e não haver como fiscalizar a mercadoria, os vendedores deveriam deixar suas mercadorias do lado de fora da cidade e entrar com seus animais por uma estreita passagem chamada de “fundo de agulha”. As mercadorias dos viajantes deveriam ser postas de lado e os camelos só entrariam nas cidades por essa passagem ajoelhados e sem as mercadorias que trazia em seus lombos; sendo esta, portanto, uma bela alegoria para a caminhada cristã.
Esta teoria é muito atraente e até alegoricamente plausível. Contudo, não há registros arqueológicos ou mesmo literários antigos que subsidiem tal visão. Esta parece muito mais uma perspectiva alegórica, típica do método de interpretação que prevaleceu na Idade Média, não parecendo ser a ideia que Jesus inicialmente quis apresentar a seus leitores (HENDRIKSEN, 2010)
b)                 Erro de tradução na palavra camelo. A segunda teoria está vinculada a um possível erro de tradução. Segundo William Barclay (19?) os substantivos gregos “kámelos” (camelo) e Kamilos (corda grossa) teriam sido confundidos pelos copistas posteriores, e por conseguinte, estes interpretes teriam trocado, acidentalmente, a letra grega iota por omicron, pois a princípio a sonoridade das vogais gregas eram similares. Se esta teoria estiver correta, a ideia que Jesus quis passar a seus discípulos era a de que seria dificílimo para um rico entrar nos reino dos Céus, assim como seria improvável alguém conseguir passar uma corda grossa, típica de uso naval em ancoras, pelo estreito buraco de uma agulha.
Apesar de atraente, não há como subscrever tal teoria. Fazemos tal afirmação por entendermos que os textos gregos mais antigos não apresentam qualquer variação gramatical na representação do substantivo grego “Kamelos”, sendo que, somente em textos tardios foram vistos a troca de “kamelos” por “kamilos”, conforme aponta o respeitado estudioso da crítica textual Roger L. Omanson (2018) em sua obra Variantes Textuais do novo Testamento. Assim, para que a interpretação seja mais coerente, devemos privilegiar textos mais antigos em detrimento dos achados mais recentes e duvidosos. Além disso, a tradição cristã parece não concordar com tal sugestão de falha na interpretação do texto.

II.                O SENTIDO POSSIVEL DAS PALAVRAS DE JESUS
Diante do conjunto de ensinos de Jesus ao jovem rico, e apegado aos seus bens materiais, parece não ser muito difícil compreender o que Mestre realmente ensinou aos seus discípulos diante daquela oportunidade pedagógica. Desta forma, concordamos com Craig S. Keener (2019) quanto ao propósito de Jesus com esta expressão: o Mestre usou de uma hipérbole para ratificar o seu ensino, devendo ser entendido como literal tal sugestão dada pelo Senhor (HENDRIKSEN, 2010)
Linguisticamente devemos analisar que o texto grego nos apresenta a seguinte construção: “πάλιν δὲ λέγω ὑμῖν εὐκοπώτερόν ἐστιν κάμηλον (kamelon) διὰ τρυπήματος ῥαφίδος (rhaphidos)”. Para nosso estudo devemos nos concentrar nas duas palavras em destaque na sentença, a saber: kamelon (câmelo) e rhaphidos (agulha). De acordo com o léxico de Louw e Nida (2019) o substantivo kamelon refere-se a um animal de grande porte com lombo curvado, devendo, portanto, ser entendido como uma referência a um animal literal. Concordando com tal proposição temos as palavras do léxico de Marvin Richardson Vicent (2012) que aponta para um antigo ensino judaico no qual Jesus se apropriou e ensinou, de fato, a impossibilidade de uma animal de grande porte entrar pelo orifício de uma agulha. Assim, de acordo com os linguistas citados “kamelon” refere-se necessariamente a um animal de grande porte, tal qual entendemos nos dias atuais. Daí surge outra questão: seria esta agulha uma fenda da cidade?
Para responder a tal proposição iniciamos com a expressiva fala de Vincent em seu léxico: “a alegação [ de Jesus] não deve ser explicada sob a alegação de uma porta estreita que seria chamada de “fundo de agulha”(2012, p.91, v1). De acordo com os já citados Louw e Nida (2019) agulha de fato é agulha! Segundo estes autores a palavra grega “rhaphidos” trata-se de “um instrumento pequeno e fino, pontudo numa das extremidades e com um buraco na outra, usado na costura[...]”( LOUW; NIDA, 2019, p. 72); Esta tradução é corroborada após uma análise dos léxicos de Mounce(2017) e  Rusconi(2015), onde apresentam que tal substantivo refere-se a simplesmente uma agulha no sentido comum da palavra. Perceba que segundo a tradução proposta no léxico de Louw e Nida não há espaço para entender esta palavra de outra forma a não ser a literal, por

isso,
A referência a um camelo passando pelo fundo de uma agulha é um exemplo de hipérbole retórica, isto é, um exagero intencional para mostrar que o acontecimento a que se estar fazendo referência é extremamente difícil ou pouco provável de se concretizar (idem, idem, p.73)
Lançando luz a partir de fontes fora no Novo Testamento, é possível compreender que Jesus disse essa expressão pautado em um ensino Talmudico recorrente em seus dias. De acordo com A.T. Robertson a ideia da expressão usada por Jesus no versículo aqui estudado fazia parte dos ensinos judaicos “no Talmude Babilônico que tem um prové,rbio que diz que nem em seus sonhos o homem viu um elefante passar pelo orifício de uma agulha”(ROBERTSON, 2011, p.220). Esta é mesma posição do já citado Vicent (2019), assim como por Russel Norman Champlim(2015). Para estes interpretes Jesus teria substituído a figura do elefante contida no proverbio talmúdico, pelo camelo em virtude de este ser o animal de maior porte existente na Palestina. Destarte, com tal afirmação Jesus mostrava que para aqueles que estavam apegados aos bens materiais as sérias dificuldades que encontrariam para entrar no Reino dos Céus, caso não mudassem sua postura.
III.            O ENSINO DO TEXTO
Diante desta rápida exegese podemos chegar a uma conclusão que nos parece a mais plausível com todo o discurso de Jesus. Assim, ao falar para um homem de alta posição social que este deveria se desprender dos seus bens a fim de seguir ao Senhor, e, diante da negativa deste homem em deixar seu apego as virtudes terrenas, Jesus, imediatamente, mostra aos seus ouvintes que enquanto o coração do homem estiver preso aos bens terrenos, colocando-o acima do Reino dos Céus, a este seria impossível herdar a vida eterna.
É interessante observar que Jesus usa de uma imagem que apresentaria a impossibilidade de um homem ser salvo por si só, apontando para uma doutrina pouco discutida em seus dias: a Graça de Deus no processo de salvação. Diante da aparente proposta absurda de Jesus - de um camelo passar no fundo de uma agulha- os discípulos assustados se voltam para Jesus e com um tom de quase desânimo interpelam a Cristo: “quem poderá, pois, salvar-se?” (v.25). É perceptível que os discípulos entenderam a proposição de Jesus de modo literal, pois assim como é impossível um camelo (literal) passar pelo fundo de agulha(literal), igualmente seria impossível a qualquer homem (inclusive eles) salvarem-se.
Nãos obstante, Jesus aproveitou a inquietação dos ouvintes para trazer um novo e maravilhoso ensino: a salvação vem do Pai. Desta forma, como já poderíamos prever, Jesus não deixaria seus discípulos inquietos e perdidos. Por isso, o mestre aproveitando-se da oportunidade ensina-os que a salvação jamais será obra humana, mas é algo que procede do Senhor. Jesus acalma seus discípulos e os ensina que: “Aos homens é isso impossível, mas para Deus tudo é possível” (v.26). Tudo é por Ele e para Ele. Louvado seja Deus!
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A analise proposta neste texto deixa claro que Jesus aproveitou a oportunidade posta para trazer um ensino valioso sobre a salvação. O mestre fala aos seus discípulos que eles deveriam tirar o seu coração do mundo e confiar que a salvação seria providenciada por Deus. De igual modo, não há motivos históricos ou linguísticos para acreditarmos que o versículo 24 de Mateus 19 faça uma referência a qualquer coisa que não seja uma expressão hiperbólica, dita com a finalidade de dar forte ênfase na mensagem de Jesus aos seus discípulos sobre salvação e graça Divina.
___________________________________
Sobre o autor: Jefferson Rodrigues é ministro do evangelho na AD do Aeroporto, em Teresina-PI. Teólogo, historiador, escritor e professor de exegese do Novo Testamento, entre outras disciplinas teológicas.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
BARCLAY, William. Comentário bíblico de Mateus. Disponível em: < http://www.iprichmond.com/atos> acesso em 13 de jun. de 2020.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Mateus. v1. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010
LOUW, Johannes P.; NIDA, Eugene A. (ed.). Léxico grego-português do Novo Testamento baseados em domínios semânticos. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.
MOUNCE, William D. Léxico analítico grego do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017.
ROBERTSON, A.T. Comentário de Mateus e Marcos: à luz do Novo Testamento grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
RUSCONI, Carlo. Dicionário do grego do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2015.
OMANSON, Roger L. Variantes textuais do Novo Testamento: análise e avaliação do aparato critico de “O Novo Testamento grego”. São Paulo: SBB, 2018.
VICENT, Marvin Richardson. Estudo no vocabulário grego do Novo Testamento. v. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A IMPORTÂNCIA DO JEJUM COMO DISCIPLINA ESPIRITUAL



Por Jefferson Rodrigues[1]

O psicólogo e palestrante nacionalmente conhecido Içami Itiba em sua obra “Disciplina: limite na medida certa” aborda de modo magistral um problema que a cada dia tem se proliferado mais e mais entre o homem do século XXI: a ausência de disciplina. O autor citado, em sua obra, aborda a falta de disciplina na criação de filhos e aponta para os malefícios que tais ações podem trazer para a formação de uma personalidade saudável na criança e adolescente[2]. Não obstante, ao observarmos a forma como a sociedade ocidental, nas últimas 5 ou 6 décadas, tem demonizado a imposição de limites, vemos que tais assertivas do professor Itiba podem ser transportadas para todas as esferas de vivências hodierna. Criamos uma sociedade que abomina o não, o negar-se, o se abster-se. É uma sociedade que assume a máxima propagada por um artista popular brasileiro que morreu de overdose e que dizia em uma de suas canções: “faça o que tu queres, pois é tudo da lei”.
Infelizmente a ausência de disciplina, de limites, tem adentrado até na vida cristã. Não são raros os casos em que encontramos cristãos militando contra todo o tipo de limites impostos tanto pelas Escrituras, como por convenções sociais e dogmáticas. “Não queremos regras”, “não queremos ser limitados”, buscamos a “satisfação completa em Cristo”. Com tais discursos - que beiram o hedonismo - estas pessoas buscam justificar sua ausência de disciplina com manobras teológicas que deixariam de cabelo em pé qualquer cristão que tenha nascido nos primeiros 1900 anos da Igreja.
Diante deste desregramento não faltam aqueles que rejeitam uma das disciplinas espirituais sempre valorizadas por todos os cristãos, estamos falando do jejum. Diante desta colocação surgem algumas indagações: Até que ponto a prática do jejum está alinhada com a manifestação plena da Graça de Deus? Será que devemos fazer está prática? O que a Bíblia diz sobre isso? Diante destas e outras questões, tentaremos, a seguir, esclarecer algumas destas indagações, ao tempo em que convidamos a todos para uma reflexão sobre a importância sumária de se manter a prática do jejum, assim como outras disciplinas espirituais que nos façam diminuir ante a majestade de Deus.

I.         O JEJUM E SUA APLICAÇÃO
Através de uma rápida busca no dicionário Aurélio online encontramos as seguintes definições do que seja jejum: 1 - Privação de comida durante um período. 2 - Privação de toda a espécie de alimento durante o dia (ou de outro período de tempo) por espírito de penitência. 3 - Privação; abstenção. Em uma perspectiva teológica podemos definir o jejum como: “Jejum na Bíblia implica em total abstinência de toda comida por um certo período[3]” ou ainda nas palavras de Ed René Kivitz: “Jejum é abstinência de alimento ou água[...] é uma forma de lembrar nossa consciência de que existe uma realidade mais importante do que nossa própria sobrevivência[4]”. Assim, com base em nestes os conceitos percebemos que o jejum trata-se de privar-se de alimento, e isso pode ser tanto com um caráter religioso como em razão de outros fatores, seja necessidade, enfermidade ou outros motivos.
A Bíblia nos mostra que o jejum era um hábito entre povo de Deus, é por isso que o professor R.N. Champlin nos informa que “o jejum, pois fazia parte importante da adoração judaica e, aparentemente, continuou assim na Igreja cristã primitiva[5]”. Encontramos, por exemplo, nas Escrituras hebraicas o verbo “sum” e o substantivo “som” para definir o ato de se abster de alimento. Já no Novo Testamento encontraremos a substantivo grego “nesteia”, palavra que tem sua raiz significando “fome”. Diante destas expressões aprendemos que para o Escritor sacro o ato de jejuar estaria diretamente ligado abstenção de alimento por determinado período de tempo, bem como este hábito era uma prática amplamente utilizada pelo povo de Deus.
Tanto no Antigo como Novo Testamento veremos inúmeros personagens que se abstiveram de alimento com vistas a um propósito espiritual. Um dos grandes exemplos de abstinência de alimentos no Antigo Testamento é o caso de Moisés. Na vida deste grande líder dos hebreus veremos pela primeira vez alguém que se absteve de alimentos com um proposito espiritual. Segundo o texto bíblico Moisés ficou “40 dias sem comer e nem beber”(Dt 9.19,18; Ex 34.28), e fez isso por duas vezes! É claro que uma pessoa em sua condição natural não poderia resistir a tanto tempo sem beber líquidos. Um ser humano normal suporta no máximo 72 horas sem ingerir líquidos. Contudo, devemos levar em conta que Moisés estava revestido da Glória de Deus, fazendo o trabalho de Deus e sustentado pelo próprio Autor da Vida. A magnitude do que houve no cume do monte foi tão glorioso que a face de Moisés resplandecia quando ele desceu da presença do Eterno (Ex 34.29,30). A ausência de alimento e água não seria um grande problema para alguém que estava ante o Eterno Criador.
Já no Novo Testamento veremos um caso similar de jejum, é o próprio Jesus. Segundo os Escritos de Mateus e Lucas Jesus jejuou por 40 dias, porém, diferente do que houve com Moisés o texto sacro não informa que o nosso Senhor ficou sem beber durante este tempo, Mateus, por exemplo nos diz: “E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome”(Mt 4.2); e Lucas afirma que: “[...] e naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminando eles, teve fome”(Lc 4.2). Em ambos os textos não vemos referência à ausência de beber líquidos. Neste ponto, você pode estar se perguntando será que o jejum de Moisés foi superior ao de Jesus? Não sejamos precipitados em nossas conclusões. Em primeiro lugar, é preciso observar que Moisés foi sustentado de forma sobrenatural por Deus. Em contrapartida, no desafio enfrentado por Jesus no deserto, Ele deveria vencer como homem para nos deixar o exemplo. O homem natural consegue manter-se vivo por aproximadamente 3 meses sem comer, porém, não resiste 3 dias sem beber. Assim, é possível que Jesus como homem tenha bebido algo durante este jejum. Porém, nada disso importa para o teor de nossa discussão. O que é valido ressaltar é que o Mestre Jesus jejuou.
II.                EXISTE ALGUM MANDAMENTO PARA QUE JEJUÁSSEMOS NO NOVO TESTAMENTO?
Diante o exemplo que acabamos de apresentar parece óbvio que Jesus tenha deixado alguma ordenança para a prática do Jejum, afinal, ele jejuou durante 40 dias! Porém, a resposta não é tão simples assim. Ao analisarmos com cuidado as páginas do Novo Testamento não encontramos uma afirmação impositiva para que os cristãos jejuassem. Contudo, veremos que por diversas vezes há a indicação desta prática como algo benéfico para a vida do Cristão. O próprio Jesus, quando interrogado sobre o porquê de seus discípulos não estarem jejuando como os de João Batista, responde que chegaria o dia em que o Noivo seria tirado e então viria o tempo de jejuar (Mt 9.15). Sim, este tempo é o que nós vivemos. São tempos em que a presença física de Jesus não está aqui, então, devemos sim jejuar buscando a proximidade espiritual com o Pai. Ainda de acordo com as palavras de Jesus, há uma orientação de como deveria ser o procedimento dos discípulos aos jejuarem, mostrado que tal prática era esperada para aqueles que seguissem a Cristo, vejamos: “Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto,” (Mateus 6:17). Existem ainda outros indicativos de jejuns por todo o Novo Testamento, tais como:
1. Nos Evangelhos: veremos o exemplo de uma mulher chamada Ana, que já em idade avançada não saia do templo, orando e jejuando (Lc 2.37), esperando a manifestação do Salvador de Israel.
2. No livro histórico de Atos dos Apóstolos, veremos que a Igreja nascente tinha uma rotina de consagração regada a jejuns e ao tomar decisões sempre o fazia através de jejuns e orações. Vejamos: a) líderes da igreja em Antioquia jejuavam buscando a adoração ao Senhor (At 13.2); b) Quando decidiram enviar missionários também se utilizaram desta prática disciplinar (At 13.3); c) Veremos que além de impor as mãos com jejum sobre os missionários enviados, a Igreja em Antioquia faziam também sobre os que recebiam autoridade de governo na igreja local. Assim, para estabelecer os ministros as Escrituras nos dizem que:Então Paulo e Barnabé lhes constituíram presbíteros em cada igreja; e, tendo orado e jejuado, eles os consagraram aos cuidados do Senhor, em quem haviam crido” (At 14.23);  d) Por fim, o próprio Paulo jejuou durante 14 dias em sua viagem para Roma (At 27.33)
3. Por fim, nas epístolas paulinas veremos diversas referências a jejuns praticados por Paulo (2 Co 6.3-5; 11.23-27).
Diante destas observações temos a convicção que a prática do jejum (sempre acompanhado pela oração) era algo de grande valor para a Igreja. Essa prática, inclusive, será adota pelos cristãos posteriores, como veremos, por exemplo, no documento litúrgico- final do século I ou início do séc. II- chamado Didaquê, que nos mostra que tal prática era comum também na Igreja pós-apostólica.
III.             AFINAL, O JEJUM MUDA OS DESIGNIOS DE DEUS?
Conscientes que esta prática era algo habitual entre os cristãos da Igreja apostólica e pós-apostólica podemos nos fazer a pergunta acima ou ainda outra mais precisa: será que eu mudo a vontade de Deus através de um jejum? Muitos crentes acreditam sinceramente que sim. Eles fazem tal afirmativa baseando-se em textos do Antigo Testamento onde parece que Deus mudou seus desígnios após um jejum de um povo ou uma pessoa. Não obstante parecer uma verdade inquestionável é preciso atentarmos para uma frase popular sobre o propósito do jejum: “O jejum não muda a Deus, antes ele muda a nós mesmos”.
Precisamos estar cônscios que o jejum alimentar é o ato de nos privarmos de algo vital para nossa existência para nos conectar com nosso Criador, ou nas palavras de Kivitz: “O jejum é um passo em direção a algo mais importante do que permanecermos vivos[6]”.  É colocar em prática as palavras proferidas pelo Senhor Jesus “nem só de pão viverá o homem” (Lc 4.4). Durante este momento de privação alimentar, e acompanhado de um período devocional onde nos voltamos para o que de fato é prioridade, para aquilo que vai além do sentido meramente carnal. Assim, com um coração voltado para o Senhor e dispostos a ouvir a sua vontade, conseguimos entender melhor qual é o centro da vontade de Deus. E se pedirmos, tendo a convicção que nossas petições estão dentro da vontade do Pai, é certo que receberemos, pois assim Jesus nos prometeu (Jo 14.13).  Ele nos concede por Graça e não porque jejuamos.
Diante disso, devemos sempre lembrar que através do jejum mudamos nosso coração, nossas prioridades e nos aproximamos mais do que é Eterno e imutável. É importante destacar que não é de grande valor jejuar sem estarmos buscando a Deus em devoção, pois isso poderá ser simplesmente “passar fome”. Se em todo caso, você tiver que trabalhar ou fazer algo durante o período de jejum, comece sempre este período com um devocional e em seguida vá para seus afazeres, mas sempre com um coração voltado para o Senhor. Finalizo este ponto afirmando que em minha experiência pessoal, já encerrei algumas vezes jejuns com um período devocional em um cantinho separado no trabalho ou até mesmo em uma praça pública. Mas é fundamental que independente do local, estejamos com o coração voltado para o Senhor.
IV.             COMO DEVE SER O JEJUM NA PRÁTICA?
Finalizarei este rápido artigo com algumas orientações práticas de como proceder durante o jejum. Faremos isso nos baseando tanto nas Escrituras, como na prática cotidiana.
1. Jejum sempre vem acompanhado de oração e uma atitude devocional. Para iniciarmos estas orientações é bom deixar claro que não podemos jejuar se não orarmos. Jejum sem oração é apenas fazer dieta. Precisamos iniciar o jejum, ainda que seja um dia comum de trabalho, com um período de oração. É preciso nos manter em “espírito de oração” e voltado para o Senhor, com plena consciência de que esta consagração nos servirá para nos aproximarmos de Deus. Não obstante o belo caráter espiritual desta prática,  é válido ressaltar um problema que muitos levantam. Em virtude da dificuldade em conciliar jejum e devocional, muitos irmãos optam por fazerem esta disciplina espiritual durante o domingo ou feriado. Contudo, penso eu, que todos os dias são propícios a esta prática, desde que nos mantenhamos em um sentimento de devoção sempre. Assim, inicie com oração e encerre o período com oração, não importando o local em que você esteja.
2.Jejum não é voto.  É preciso diferenciar a prática de jejum da prática bíblica de oferecer um voto ao Senhor. Nas Escrituras quando se fala de jejum sempre está relacionado com a ausência de alimentos. Contudo, existem alguns irmãos que defendem que o jejum pode ser feito de outras coisas como aparelhos celulares, redes sociais, televisão e outros meios similares. Na verdade, para mim, tais ações são bem vindas, porém, acredito que sejam mais compatíveis com votos ao Senhor do que com jejum. O jejum em si é a abstenção de alimentos (vide tópico 1).
4.Quanto tempo deve ser? Neste ponto, é importante falarmos em relação ao tempo do jejum. Algumas pessoas acreditam que tal prática só é válida se iniciada no raiar do dia e findada no por do Sol ou ainda se for de 24 horas. Porém, quando vemos alguns exemplos nas Escrituras podemos perceber que a rainha Ester, por exemplo, jejuou 3 dias (Et 4.16), já o Paulo jejuou tanto por 3 dias como por 14 dias (At 9.9; At 27.33). Então, não há uma especificidade de dias ou horas. O que deve ser lembrado é que o jejum só pode ser válido se você se sentir jejuando, ou seja, você deve sentir que está se abstendo daquela refeição. Eu particularmente jejuo de modo total (falaremos dos tipos a seguir), a partir do raiar do dia até a refeição do almoço, ou ainda, me abstenho do almoço até o entardecer. Mas isso deve ser ponderado por cada um, de modo sincero e reverente diante de Deus.
5.Quais são os tipos de jejuns? Neste ponto é importante observarmos que existem pelo menos 3 tipos de jejuns: parcial, normal e total.  Em relação ao jejum parcial é aquele praticado por pessoas que tem dificuldades (por razões médicas) de ficar sem comer durante muito tempo. Neste tipo de Jejum recomenda-se que a pessoas tire alimentos que lhe causam prazer tais carne, arroz e outros que para a pessoa é essencial. Temos como exemplo deste tipo de Jejum o profeta Daniel (Dn 10.2,3).
Em relação ao que chamamos de jejum normal é aquele em que se admite o consumo de água. Este é o tipo de jejum mais comum nas Escrituras, inclusive é o que se acredita que Jesus praticou no deserto (Mt 4.2). É  recomendado para quem irá passar muitas horas (talvez 12horas ou um pouco menos), pois a desidratação poderá trazer sérios danos para a saúde física. Por fim, temos o jejum total. Neste tipo de jejum a pessoa se abstém tanto de líquidos como de comidas. Este tipo de prática é recomendada para aqueles que não tem problemas de saúde ou que não ficarão por longos períodos de consagração, na Bíblia vemos poucos exemplos explícitos deste tipo de jejum.
6. A recomendação essencial: não seja hipócrita! Por fim, se estiver jejuando não tenha isso como mérito pessoal. Esse tipo de jejum foi condenado pelo Senhor Jesus, para piorar Jesus chamou tais pessoas de hipócritas (Mt 6.16). Não precisamos aparentar que estamos morrendo ou ficar com aparência abatida para nos mostrarmos mais santos que outros. O jejum é algo que deve servir para nos aproximar de Deus e nos tornar mais servos uns dos outros. Então, tome banho, escove os dentes aja normalmente. E se for indagado por que rejeitou algum alimento não precisa ser misterioso, apenas diga: obrigado, hoje estou dedicando um tempo especial ao Senhor. Façamos de modo que o Reino de Deus seja glorificado. Afinal, como diz o apóstolo Paulo: “façamos tudo para glória de Deus”(1 Co 10.31 b).
Considerações finais.
Diante do exposto vimos que a prática do jejum é algo bíblico e benéfico para a vida espiritual do cristão. Porém, precisamos ter em mente que o verdadeiro jejum é a mudança de atitude diante de Deus. Não adianta vivermos uma vida inteira passando fome (como faziam os fariseus) se o nosso coração não estiver voltado para Deus e para fazer a verdadeira obra de Deus. É por esta razão que o profeta Isaías advertiu de modo severo ao povo de Deus para que cuidasse dos oprimidos e necessitados, mostrando que o verdadeiro jejum era a mudança do seu interior e a prática do amor ao próximo  (Is 58.5-9). Desta forma, desejo sinceramente que o nosso jejum seja aquele que verdadeiramente agrade ao nosso Deus!
 
 
 



[1] Jefferson Rodrigues, é Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Piauí, Licenciado em História pela Universidade Estadual do Piauí, com especialização em Estados, Movimentos Sociais e Cultura pela mesma universidade. É Evangelista na Assembleia de Deus em Teresina-PI, Campo do Aeroporto, onde é coordenador de EBD. Também é membro da Academia Evangélica de Letras do Piauí. Cadeira 32.
[2] ITIBA, 1996, pp.42-48
[3] WICLYFFE, 2011, p.1016
[4] KIVITZ, 2012, p.73
[5] CHAMPLIN, 2015, p.442
[6] KIVITZ, 2012, p.73

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SANSÃO COMETEU SUICÍDIO? É PREFERÍVEL SER UM CRENTE FIEL MORTO À UM HERÓI LONGE DO SENHOR.

Por Jefferson Rodrigues

Gostamos de fama. Sim, o ser humano gosta de ser visto, lembrado e aplaudido. Este fato nos impulsiona a medir nossa glória em conformidade com o nível de aprovação que os homens nos dão. Muitas vezes somos tentados a pensar que mesmo vivendo em desacordo com a vontade de Deus está tudo bem, desde que continuemos a ser vitoriosos em nossas batalhas.

Para Sansão esta pareceu ser sua metodologia de vida. Talvez pensasse o nazireu: “enquanto estou conquistando vitórias é sinal de que Deus continua comigo”. O que ele não percebia é que a única coisa que o mantinha na linha de frente era a utilidade que o SENHOR encontrava nEle. Sim, Sansão era apenas um instrumento com prazo de validade contado nas mãos do Senhor!

O juiz fanfarrão se movia impulsionado pelos seus instintos de violência, desejos carnais desenfreados e uma busca incessante pela fama meramente humana. Nos três capítulos do livro de Juízes (13-16) que tratam sobre a trajetória de Sansão não o encontramos buscando a presença de Deus, tendo intimidade com Deus ou ainda confiando em Deus para alcançar vitórias. Pelo contrário, vemos alguém prepotente, encantado pelas suas próprias conquista e distante de Deus.

O fim de Sansão era inevitavelmente previsível. Ele seria derrotado. Não por Dalila, mas seria derrotado por si mesmo, pelas suas escolhas e por fim pelo Senhor que já havia dito aos israelitas antes de entrar na terra prometida: “minha é a vingança”(Dt 32.35). O cenário estava montado para que a justa “recompensa” caísse sobre o “Juiz promíscuo”. Ele é preso, humilhado, destituído de todas as suas pomposas vitórias.

Agora cego para o mundo, sem amigos que o corrompesse, sem glórias humanas para o insuflar e servindo de espetáculo para seus inimigos; só restava a Sansão lembrar das promessas que o Senhor Iavé fizera sobre a sua vida e missão, que dizia: “...ele começará a livrar a Israel da mão dos filisteus”(Jz 13.5). Sim, seria este homem pecador que daria início a vitória de Israel sobre os Filisteus que só seria concluída cerca de 100 anos depois com Davi.

Pela primeira vez Sansão parece ter intimidade com Deus! Em meio a um espetáculo público, onde o grande herói serviria de “bobo da corte”, Sansão se lembra do Senhor, ele abaixa a cabeça e pela primeira vez o vemos orar com o coração ao dizer: “Senhor Iavé, peço-te que lembre-se de mim e me fortaleça só esta vez, ó Deus...”(Jz 16.28). Sentimos a dor no clamor do juiz humilhado, sentimos a angustia em sua oração, mas também sentimos a verdadeira fé fluir de suas palavras. Sua fé é comprovada pela solicitação de ser colado junto as colunas, mesmo antes de ter certeza que seria ouvido pelo Senhor.

O filho de Manoá, sabia que o Senhor o havia perdoado e que mais uma vez estaria com ele em sua ultima batalha. Sansão não cometera suicídio como muitos pensam. Na verdade junto aquelas colunas ele lutaria a guerra do Senhor, cumpriria sua vocação de conduzir o povo ao livramento dos opressores filisteus. E assim se fez. O Senhor ouviu Sansão e o fortaleceu mais uma vez. E ali junto as colunas do templo de Dagom, o Nazireu destruiu toda a elite dos filisteus, destruindo com este ato mais de 3 mil inimigos do povo de Israel. Era a maior vitória que já tinha conquistado. Era a vitória do Senhor!

O nosso herói morreu em sua ultima batalha. Contudo, sua morte marcou a verdadeira vida. Ele então pode descansar, pois finalmente havia conhecido o Senhor e lutado pelo Deus de Israel. Foi na sua aparente derrota que conheceu intimamente o Grande Eu Sou, foi em sua morte que ele pode ser lembrado entre os heróis da Fé descritos em Hebreus 11.32, sendo contados entre os “homens dos quais o mundo não era digno”(Hb 11.38).

Aprendemos com isso que para Deus é mais importante um crente fiel morto do que um herói aclamado por todos vivo. Os erros de Sansão servem de alerta para todos nós. Todavia, sua lição final nos diz que mesmo quando tudo está aparentemente perdido, ainda é possível clamar ao Senhor e Ele nos ouvirá. Confiemos no Senhor, pois a vitória é possível!

Em Cristo, Jefferson Rodrigues 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O QUE UMA ESPOSA PODE FAZER PELO SEU MARIDO? ELA PODE FAZER MUITO!

Por Juliana X. Rodrigues

Lendo hoje o capítulo 25 de 1 Samuel, compreendo mais uma vez o quanto as mulheres são e sempre foram importantes na vida dos seus esposos, ou de seu povo. Ester livrou os Judeus de serem abatidos (Ester 4.16) e Abigail livrou Nabal, seu esposo (1 Sm 25.32,33)
Conta o texto que Davi, "Homem de guerra, sisudo em palavras, e de gentil aspecto"(1Sam 16:18), fazendo jus às suas características havia sido generoso com os servos de um homem que não conhecia, a saber, Nabal que era "Homem duro e mal" (1 Sam 25:3). A estes servos Davi os protegeu em terra estrangeira. Contudo, quando Davi foi às terras de Nabal, não foi recebido da mesma forma. Nabal disse: "Quem é Davi? Quem é esse filho de Jessé?" (1 Sam 25:10). 
Essa situação fez Davi se irar e ir contra Nabal com propósito de mata-lo e aos seus servos também.Tudo seria dizimado. Nesse momento quem entra em cena? Abigail "mulher inteligente e bonita" (1 Sam 25:3) e esposa de Nabal. Ela tomou para si a situação, com sabedoria foi até Davi e livrou o homem de Deus de cometer um ato impensado e destruidor (1 Sm 25.32,33). Davi ficou agradecido, e Nabal foi morto, mas não pelas mãos de Davi e sim do Senhor (v.38).  Abigail fez a diferença nesta situação, se ela não tivesse tomado atitude Nabal teria sido destruído, e Davi carregaria as consequências desta atitude para o seu reinado. 
Nós mulheres podemos e devemos ser como Abigail ajudar, intervir pelos nossos esposos, pelo nosso povo e principalmente em oração. A atitude de uma mulher inteligente e sábia fez a diferença. Suas atitudes em meio às adversidades podem fazer a diferença na vida e no ministério de seu esposo. Seja como Abigail, e viva a plenitude daquilo que Deus tem pela sua família.

Juliana Xavier Rodrigues