terça-feira, 26 de abril de 2022

“UM NOVO PARADIGMA VOS DOU[1]”: RESSIGNIFICANDO A COSMOVISÃO DA HIPERMODERNIDADE A PARTIR DO DISCURSO DE JESUS EM MATEUS 6.19-24

 


Por Jefferson Rodrigues[2]

RESUMO

Este trabalho propõe-se a analisar as implicações que os ensinos de Jesus proferidos no Sermão do Monte, especificamente na perícope de Mateus 6.19-24, podem ter sobre a cosmovisão da hipermodernidade (LIPOVETSKY, 2004), especialmente, quando esse modo de compreender o mundo relativiza valores essenciais para o cristianismo como a relação altruísta para com próximo. Para tanto, utilizar-se-á o método de pesquisa qualitativa e bibliográfica para que se apure as implicações possíveis entre o que é apresentado por alguns teóricos da hipermodernidade e aquilo que a perícope de Mateus apresente como padrão de cristianismo. Além disso, valer-se-á de recursos exegéticos que apresentem o sentido histórico-gramatical do texto de Mateus 6.19-24, com a finalidade de extrair o sentido mais próximo do que era pretendido pelo autor sacro.

Desta forma, pretende-se responder a algumas indagações, tais como: Qual cosmovisão é apresentada pela hipermodernidade? O que é hipermodernidade? Quais são as implicações do ensino de Jesus apresentado em Mateus 6.19-24 para a sociedade contemporânea? Estas perguntas não esgotam as possibilidades de questionamentos a serem levantadas, contudo, tais demandas podem ser propostas em pesquisas posteriores.

Palavras-chaves: 1. Sermão do Monte; 2. Hipermodernidade; 3. Reino de Deus.

INTRODUÇÃO

O ministério de Jesus teve como uma de suas marcas a prática do ensino constante. Sua didática formava cidadãos que teriam dupla nacionalidade: terrena e celeste. O mestre Jesus foi, sem dúvida, o maior ensinador de todos os tempos. Tal afirmação tem como pressuposto o conceito preconizado pelas Escrituras, de que nele habita toda a plenitude de Deus (Cl 2.9), sendo assim, todos os seus ensinos são superiores aos outros apresentados na história humana, e, portanto, devem ser considerados como paradigmas para uma vida saudável na esfera física como espiritual.

Os discípulos de Jesus registraram suas instruções através das Escrituras. Mormente, encontram-se nos Evangelhos a apresentação de todos os discursos pedagógicos de Cristo. Entre os maiores pronunciamentos de Jesus, destaca-se o Sermão do monte. Para Hendriksen (2010), este é o discurso que apresenta a essência ética do reino de Deus. Carson (2018) destaca, na introdução ao seu comentário ao Sermão do Monte, que nestas falas de Jesus encontram-se padrões éticos necessários para aqueles que são pertencentes ao reino de Deus. É fato, que neste discurso Jesus extrapola a questão temporal e estende seus ecos a todas as eras onde existam fiéis cristãos.

Tendo como base a premissa acima proposta, este trabalho propõe-se a analisar neste sermão, as implicações que os ensinos de Jesus, especificamente na perícope de Mateus 6.19-24, podem ter sobre a cosmovisão e que tem sido apresentada pela chamada hipermodernidade (LIPOVETSKY, 2004), especialmente quando relativiza a hipermodernidade relativiza valores essenciais para o cristianismo como a relação altruísta para com próximo. Para tanto, utilizar-se-á o método de pesquisa qualitativa e bibliográfica para que se apure as implicações possíveis entre o que é apresentado por alguns teóricos da hipermodernidade e aquilo que a perícope de Mateus apresente como padrão de cristianismo. Além disso, valer-se-á de recursos exegéticos que apresentem o sentido histórico-gramatical do texto de Mateus 6.19-24, com a finalidade de extrair o sentido mais próximo do que era pretendido pelo autor sacro.

Desta forma, pretende-se responder a algumas indagações, tais como: Qual cosmovisão é apresentada pela hipermodernidade? O que é hipermodernidade? Quais são as implicações do ensino de Jesus apresentado em Mateus 6.19-24 para a sociedade contemporânea? Estas perguntas não esgotam as possibilidades de questionamentos a serem levantadas, contudo, tais demandas podem ser propostas em pesquisas posteriores. Outrossim, acredita-se que as inquirições postas para este trabalho são satisfatórias para que se obtenha uma resposta a partir da pesquisa desenvolvida ao longo deste artigo.

1.            A HIPERMODERNIDADE E SUA COSMOVISÃO

Neste primeiro momento é relevante para a pesquisa apresentar alguns conceitos que se mostram relevantes para a compreensão do tema em discussão neste tópico, a saber, a cosmovisão da hipermodernidade. Assim, demonstrar-se-á a perspectiva apresentada pela cosmovisão secularista para, em seguida, expandir para os conceitos propostos pelo pensamento hipermoderno e suas implicações para cotidiano das pessoas, especialmente, para os cristãos.

1.1.        A cosmovisão secularista

Muito se fala a respeito do impacto que uma determinada cosmovisão tem sobre as relações praticadas entre indivíduos que integram certo grupo social. Contudo, para que se confirme tal proposta é preciso em primeiro lugar se determinar o conceito de cosmovisão. Miller define cosmovisão como “um conjunto de suposições em que se crê consciente ou inconscientemente, pela fé, com respeito à composição básica do universo e como ele funciona” (MILLER, 2003, p.35). Através do conceito exposto por Miller percebe-se que cosmovisão é um conjunto de crenças pelas quais os sujeitos compreendem o mundo ao seu redor, não estando ligado, necessariamente, a fé religiosa.

 Para Domingues (2014, p. 676) “A presença de uma cosmovisão impacta a forma como homens e mulheres interpretam a realidade, devido às pressuposições que fundamentam o sistema de crenças eleito”. Esta cosmovisão passa a ser o equivalente a lentes de óculos pelos quais os indivíduos passam a enxergar a sociedade e seus valores, afinal, “a cosmovisão, portanto, indica uma forma de olhar a realidade e interpretá-la” (DOMINGUES, 2012, p. 274)

Desta forma, afirma-se que o mundo pode ser compreendido a partir de diversas cosmovisões. Contudo, para o foco deste trabalho restringir-se-á ao exame de duas destas cosmovisões. De um lado há uma cosmovisão que direciona as pessoas a enxergarem o seu mundo através dos princípios apresentados por Jesus e seus apóstolos. Do outro lado, há outros “óculos”. Estes “outros óculos” defendem outros valores como: individualismo, secularismo e hedonismo. A esta cosmovisão denomina-se secularista. Deste modo, a cosmovisão secularista torna-se predominante na vida do sujeito pós-moderno, especialmente, quando se observa que ambas as cosmovisões buscam da satisfação pessoal e a felicidade plena como fim último da vida do sujeito (BRAGA, 2010, p. 77).

Assim, percebe-se que a cosmovisão secularista traz consigo valores que são, em grande parte, antagônicos aos princípios defendidos pelo cristianismo. Não obstante, será através das lentes secularistas que os tutores da pós-modernidade moldarão o processo formativo social no ocidente. Diante disso, percebe-se a urgência de uma ressignificação de tais valores a partir da ética exposto por Cristo em seus ensinos. Contudo, antes de se tratar de alguns princípios expostos por Jesus através do Sermão do Monte, é preciso que se examine mais detidamente a cosmovisão secularista reinante na hipermodernidade.

1.2.             Tempos hipermodernos

A hipermodernidade surge como um projeto de expansão do modelo individualista da pós-modernidade. Para Lipovetsky, a década de 1980 marca o início deste novo movimento social marcado pela continuidade de valores pós-modernos, porém, ampliados e aprimorados (VERBICARO; RODRIGUES, 2017). Esta tornou-se a era do hiper, que se caracteriza por três marcas especificas: hipermodernidade, hiperconsumismo e hipernarcisismo (LIPOVETSKY, 2004). Assim, com a hipermodernidade:

Nasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita à satisfação imediata das necessidades, estimula a urgência dos prazeres, enaltece o florescimento pessoal, coloca no pedestal o paraíso do bem-estar, do conforto e do lazer. Consumir sem esperar; viajar; divertir-se; não renunciar a nada: as políticas do futuro radiante foram sucedidas pelo consumo como promessa de um futuro eufórico (LIPOVETSKY, 2004, p.61)

Os valores deste novo tempo são centrados mais do que nunca na figura do “eu”, da inteira satisfação do desejo individual. A globalização e a ideia de uma cultura de massa, ampliou a percepção de que tudo o que existe no mundo está ao alcance de qualquer pessoa. É o tempo perfeito para o consumo desenfreado, sem se preocupar com valores morais ou religiosos.

O ser humano hipermoderno vive o presente, aproveita o momento e busca a felicidade individual. Contudo, há um paradoxo deontológico, pois ao mesmo tempo em que se consome o hoje, ele mostra-se preocupado com causas globalizantes. Talvez seja um reflexo do hipernarcisismo existente neste tempo (LIPOVETSKY, 2004).

O hipernarcisista apresenta uma imagem de responsabilidade diante de assuntos globais, ou seja, ocorrem preocupações com questões voltadas às causas ecológicas, sociais e particulares de grupos minoritários, envolvendo o reconhecimento e a inserção de direitos por meio do ordenamento jurídico.

Há uma ansiedade, ainda, diante de um possível apocalipse climático ou ecossocial. Porém, este mesmo indivíduo transforma tais preocupações em mercado, consumo, em estilo de vida. Possivelmente, tal atitude reflita certa máxima popular: “antes de salvar o mundo, arrume o seu quarto”. O sujeito hipermoderno preocupa-se com o mundo, porém, não se envolve com causas locais e objetivas. Valoriza a vida das baleias, mas defende o direito ao assassinato de crianças através do aborto.

1.3.              O consumo na hipermodernidade

Percebe-se que a cosmovisão da hipermodernidade apresenta valores individualistas e consumistas. Aqui, pretende-se ampliar o conceito de consumo, pois não se trata de apenas comprar certo objeto inanimado. Na verdade, os tempos hipermodernos tem gerado um conceito de consumo através das relações entre os sujeitos, desta forma, “os objetos que atualmente consumimos são mais a amizade, a intimidade, o amor, o orgulho, a felicidade e a alegria[...]”(KAVANAUGH, 1984, p.53). Não é uma questão meramente de possuir um bem de consumo, mas são valores que se entranharam nas relações entre as pessoas, as quais deveriam ser sagradas, conforme a fé cristã ensina.

Pessoas aproximam-se de outras com interesse de adquirir vantagens pessoais. A mídia vende o padrão ideal de uma vida bem-sucedida. Logo, quando não se atinge tais padrões requeridos pelo sistema, o sujeito sofre dupla pressão através de cobranças:  1. A pressão eclode de si mesmo, pois o sujeito deseja ser igual ao padrão “ideal”; 2. As demandas são postas pelos outros, pois eles exigem um paradigma de perfeição inatingível (BETO, 2000, p.41). Dessa forma, esse modelo de consumo transforma pessoas em objetos de consumo, que poderá (ou não) trazer vantagens pessoais para aquele que “compra” a relação.

A religião igualmente sofre com este modelo. Os cultos e as celebrações passaram a ter que atingir o nível exigido pela sociedade de consumo. Exige-se que as celebrações religiosas tenham em suas programações elementos que as tornem atrativas, e que façam com que o fiel/consumidor se sinta motivado a ir ao templo, a ligar a TV, ou mais recentemente, a assistir a “live” que a comunidade religiosa irá realizar. Há um processo de secularização do sagrado, “[...] pois a religião passa a ser objeto de escolha do mercado religioso, conforme os interesses, desejos e as necessidades individuais” (PEREIRA, 2016, p. 88).

 Neste afã de satisfazer o cliente/fiel, igrejas perdem de vista os parâmetros bíblicos, a fim de serem vistas como antenadas com as últimas tendências do mercado cristão. Neste ponto, precisa-se questionar: existe mercado cristão? A resposta é sim e não. O sim vem da realidade experimentada no cenário brasileiro, onde facilmente se percebe que a fé cristã se tornou meio de arrecadação financeira e de promoção de artistas que vendem seu nome e seus produtos, atendendo as necessidades de uma religião pautada na satisfação individual (PEREIRA, 2016).

Em contrapartida, pode-se dizer que não existe mercado cristão com base nos princípios bíblicos. Assim, faz-se necessário que se observe os valores apresentados por Jesus no seu mais extenso discurso, registrado no evangelho de Mateus: o sermão do Monte. Para tanto, examinar-se-á a seguir a perícope de Mateus 6.19-24.

 

2.            IMPLICAÇÕES ÉTICAS DO DISCURSO DE JESUS EM MATEUS 6.19-24

Percebe-se que a cosmovisão reinante no mundo contemporâneo tem sido a secularista e que a mesma traz como valores prioritários aqueles advindos da hipermodernidade. Assim, é relevante, para o cristão, que haja uma posição oposta a este quadro. Para tanto, se averiguará os princípios exposto nas Escrituras, mormente, aqueles proferidos por Jesus, os quais são essenciais para consolidar uma cosmovisão que esteja alinhada com os valores do Reino de Deus, conforme apresentados nos ensinos de Cristo. Deste modo, se examinará com mais detalhes os ensinos expostos na perícope de Mateus 6.19-24.

 

2.1.             O Sermão do Monte

O texto a ser analisado encontra-se em uma das mais longas instruções de Jesus, trata-se do Sermão do Monte distribuído entre os capítulos 5, 6 e 7 do livro de Mateus. Este é um discurso proferido por Jesus logo após as suas primeiras prédicas dirigidas publicamente às multidões (Mt 4.12-25). Percebe-se que a forma com que Jesus falava atraia multidões, que passavam a segui-lo. Assim, por onde quer que Jesus fosse as multidões o seguiam. Mateus afirma que grandes multidões acompanhavam ao Mestre (Mt 4.25). Eram pessoas enfermas e oprimidas que vinham “[...] da Galileia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e da região do outro lado do Jordão” (Mt 4.25 b), em busca de solução para suas aflições.

As multidões cresciam e o número de discípulos também. Diante do número cada vez maior de seguidores, Jesus precisava ensiná-los sobre o cerne de sua mensagem: o reino de Deus. Este reino na perspectiva apresentada pelo Evangelho de Mateus, não se refere a um reino temporal, mas assume um aspecto espiritual (CARSON, 2018). Entrar no reino de Deus é o equivalente ao conceito joanino de ter a vida eterna (Jo 5.24). Deste modo, para estes novos súditos do reino de Deus era preciso ensinar os padrões éticos deste domínio espiritual. Por isso, Jesus ocupa-se de um extenso ensino, abordando diversas atitudes esperadas de um discípulo que segue o Rei do reino.

De modo organizado, o escritor do Evangelho de Mateus divide o sermão do Monte em três temas propostos, conforme apresentado por Hendriksen (2010). No primeiro eixo dialogal, Jesus fala sobre os cidadãos do reino de Deus (Mt 5.2-12) e estabelece como deveria ser sua relação com mundo (vv. 13-16). Em seguida é apresentada a justiça do reino, o padrão que o Senhor exige daqueles que fazem parte deste domínio (Mt 5.17-7.12). Por último, Jesus conclui seu sermão com uma ardente exortação a que se entre no reino (v.13-27). Percebe-se que tudo o que o mestre falou causou um forte impacto nos ouvintes e é descrito de modo categórico nos versículos finais do sermão, pois “[...] as multidões estavam maravilhadas com o seu ensino” (v. 28 b).

Este ensino que moveu multidões, há dois mil anos atrás, ainda ecoa no tempo presente. Os discípulos de Cristo do século presente devem se atentar para as orientações atemporais das palavras do Senhor, direcionadas para todos aqueles que já entraram no reino de Deus através da fé em Jesus. Assim, independentemente da cosmovisão dominante nos tempos hipermodernos, o discípulo de Jesus deve seguir o padrão do reino ao qual ele pertence.

A cosmovisão do Reino de Deus é diretamente oposta ao padrão consumista da hipermodernidade. Ela centra-se, primordialmente, em dois valores: amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (DOMINGUES, 2012). Ver-se-á a essência da cosmovisão do Reino a partir de uma análise do discurso de Jesus, contido em Mateus 6.19-24.

 

2.2.        Um confronto à hipocrisia religiosa(vv.1-18)

O capítulo 6 do Evangelho de Mateus é uma continuação do já mencionado Sermão do Monte. Jesus inicia este discurso ensinando aos seus discípulos o modo correto de como praticar as obras de justiça no reino de Deus. Obras de justiça é um termo utilizado para se referir a três ações que eram vistas como de grande valor pelos judeus religiosos nos dias de Jesus: esmolas, oração e jejum (Mt 6.1-18). Em sua prédica, Jesus ensina que tais ações não devem ter como objetivo mostrar uma falsa santidade, como faziam os religiosos daqueles dias. Era preciso ajudar, orar e jejuar com a finalidade certa, pois Deus enxerga o interior do coração, não necessitando de nenhuma mostra exterior para que sua atenção seja atraída (CHEUG, 2011).

Há nesta perícope, um confronto direto à hipocrisia praticada pelos fariseus e escribas ao dar, orar e jejuar (vv. 2, 5 e 16). A palavra grega “ὑποκριταὶ”(hipokritai) tem como significado básico “ator, intérprete ou alguém que representa o papel de outro”(ROBERTSON, 2011, p.80). Este foi o termo escolhido pelo escritor do Evangelho de Mateus, para descrever as ações dos fariseus, que agiam como um ator que interpretava um papel de caridade, quando na realidade buscavam satisfazer seus desejos egoísticos.

Os religiosos hipócritas alegavam cumprir a “Lei”, porém, suas ações estavam longe disto. Eram atores que fingiam ser alguém que não eram. Em público, eles agiam de um modo a ser glorificado pelos homens, mas diante de Deus, suas ações já estavam reprovadas. Assim, Jesus orienta que os seus discípulos não ajam deste modo, pois a justiça exigida daqueles que fazem parte do reino de Deus deve ser superior àquela praticada pelos religiosos infiéis. A cosmovisão do Reino exige do discípulo sinceridade e fidelidade com relação à obra para o qual foi designado.

 

2.3.              Construindo tesouros no lugar certo (vv.19-24)

A partir do capítulo 6 verso 19 do Evangelho de Mateus há uma aparente mudança no discurso de Jesus. Ele sai do tema sobre a forma correta de se praticar obras de justiça e começa a falar a respeito dos perigos de se idolatrar os bens materiais. Contudo, não se deve deduzir, apressadamente, que houve uma mudança real de objetivo. Na verdade, Jesus continua ensinando aos seus discípulos sobre a justiça pretendida daqueles que se dizem súditos do reino de Deus, os portadores de vida. Estes homens e mulheres deveriam centrar-se nos tesouros que transcendem o visível, uma vez que são os reais tesouros do reino que devem impulsionar as ações dos crentes fiéis. Assim, a exortação de Jesus é enfática: “Não ajunteis tesouros na terra [...]” (Mt 6.19).

Esta orientação de Jesus é uma clara advertência contra aqueles que se dizendo discípulos de Cristo, continuam com a centralidade da sua vida voltada para o acúmulo de vantagens pessoais e terrenas. Carson (2010, p.2018) apresenta uma opção de tradução que realça a verdade ensinada por Cristo neste texto: “o tempo presente da proibição ‘mê thêsaurizete’ bem podia ser traduzida por: ‘Parem de acumular tesouros’”. Esta é uma tradução que mostra a importância do discípulo de Cristo não se amoldar ao padrão consumista exigido por qualquer sociedade e em qualquer tempo.

Outra relevante observação sobre este versículo é a evidente conexão com a proposta da perícope anterior (Mt 6.1-18). Jesus denunciou a hipocrisia dos fariseus e escribas ao praticarem obras de justiça com a finalidade de serem reconhecidos diante dos homens. Logo, estes religiosos estavam acumulando tesouros diante dos homens e não diante de Deus. Vicent Cheug, diz que:

 

[...] os hipócritas religiosos estão interessados em criar uma reputação de piedade para o povo, com relativamente pouca consideração para como Deus os vê, os pagãos – religiosos ou não – estão obcecados em acumular tesouros sobre a terra, e não no céu (CHEUG, 2011, p.201).

 

            Em contrapartida, o discípulo de Cristo deve centrar-se naquilo que agrada verdadeiramente ao Rei do reino. Assim, a atitude primeira requerida do discípulo é que ele tenha compromisso com o “Céu” e não com os tesouros da terra (Mt 6.19)

A sentença final proferida por Jesus, no versículo 21, é um chamado à reflexão e ao real compromisso que o súdito do reino de Deus deve assumir. Afinal, onde está o seu tesouro? Nas riquezas materiais? Na glória individual? No bem-estar pessoal? Jesus é categórico ao afirmar: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6.21, NVI). Hendriksen (2010) faz algumas observações relevantes sobre o sentido pretendido por Jesus ao proferir este ensino; ao mesmo tempo, percebe-se a clara advertência contra a cosmovisão da hipermodernidade, em que coloca o consumismo como o centro da vida. Deste modo:

 

[...] se o verdadeiro tesouro de uma pessoa, seu propósito último em todos os seus esforços, é algo que pertence a esta terra- a aquisição de dinheiro, fama, popularidade, prestígio, poder – então o seu coração, o próprio centro de sua vida (Pv 4.23), será completamente absorvido por este objetivo mundano. Todas as suas atividades, mesmo aquelas que são de caráter religioso, serão subservientes a esse único propósito. Por outro lado, se movido por sincera humildade e gratidão a Deus, faz o reino de Deus o seu tesouro, ou seja, o reconhecimento deleitoso da soberania em sua própria vida e em cada esfera da mesma, então é ali também onde estará o seu coração. Nesse caso, o dinheiro será uma ajuda, e não um entrave (HENDRIKSEN, 2010, p.428)

 

Outrossim, percebe-se que o tesouro do cristão deve ser distinto tanto daqueles que não fazem parte do reino de Deus, como daqueles que somente acham que fazem parte deste reino, a quem Jesus chamou de hipócritas. Não há problema em se ter bens materiais, porém, a questão é colocar nestes bens todo o coração, todas as energias nas riquezas materiais. O discípulo que compreender bem os ensinos de Jesus é participante deste mundo, vive na hipermodernidade, contudo, os seus valores são oriundos do reino de Deus e não do reino do consumo hipermoderno.

Ainda no capítulo 6 do Evangelho de Mateus, Jesus continua com suas observações quanto à atitude esperada dos discípulos do reino. Nos versículos 22 a 24 é apresentado uma intrigante parábola sobre a condição dos olhos dos discípulos. Nos versos 22 e 23 é proposta a seguinte questão: “[...] se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz [...] se os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso”). Perceba que a questão levantada nesta parábola envolve a condição do corpo de uma pessoa, uma alusão a sua vida espiritual. Neste caso, a depender do tipo de olho que esta pessoa possui, então, ela poderá ter luz em todo o seu corpo ou viverá em trevas.

O texto bíblico de Mateus 6 faz uso do adjetivo grego ἁπλοῦς(haplũs) para descrever a qualidade dos olhos. Robertson (2011, p.86) destaca que ἁπλοῦς “é usada para referir-se a um contrato de casamento no qual o marido tinha de pagar o dote ‘puro e simples’”. Neste sentido, ser puro e simples parece ser o indicativo de como deveria ser os olhos de um cristão. Se os olhos forem bons (haplũs), tendo uma visão reta, pura, e não apresentando falsas imagens, então, o corpo igualmente será bom e viverá em luz. Este conceito está ligado a tudo que foi dito nos versículos anteriores, pois do súdito do reino de Deus é requerido que sua visão seja única e saudável. Ele não pode olhar para os valores terrenos e vê-los como algo certo. A sua visão deve ser perfeitamente estabelecida.

Por fim, Jesus informa algo que continua sendo de muita relevância para os dias atuais. “Não podeis servir a Deus e Mamom” (v. 24). Servir ao reino de Deus é uma atividade exclusiva. O coração deste servente deve estar inteiramente entregue a sua pátria, ao seu Rei. Contudo, ainda são muitos os servos deste reino que mantém o seu coração dividido entre Deus e Mamom. Deve-se esclarecer que Mamom é uma palavra de origem caldeia, siríaca e púnica referente ao deus (ou demônio) da riqueza (ROBERTSON, 2011). Assim, Jesus considera a riqueza (o amor a ela), um deus que pode cooptar corações e destruir os homens.

Deste modo, o tesouro do crente fiel jamais poderá ser posto nas riquezas deste mundo ou em seus valores corrompidos. Os olhos do crente devem ser capazes de reproduzirem a verdadeira imagem do padrão requerido pelo Senhor do reino de Deus. Servir a este Senhor requer exclusividade, por isso, “ninguém pode se dedicar a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo[...] essas três metáforas- tesouro, luz e escravidão – unem-se para exigir lealdade inabalável aos valores do reino” (CARSON, 2018, p.90)

 

CONSIREAÇÕES FINAIS

A cosmovisão da hipermodernidade é um contraponto aos padrões tradicionais da sociedade pautada nos valores cristãos. Nos tempos hipermodernos, o consumismo desenfreado tem dado a tônica das relações sociais. Com este pensamento, o coletivo deixa de ter valor e a satisfação imediata do sujeito deve ser alcançada a todo custo. Percebe-se que tais valores têm chegado até mesmo nas relações religiosas, um reduto onde se pressupõe que os ensinos de Jesus são predominantes.

Diante desta situação, recomenda-se que o cristão se volte para os ensinos de Jesus e a partir disso, estabeleça a sua cosmovisão que deverá ser aplicada nas mais diversas esferas da sociedade. Deve-se frisar que os ensinos de Jesus são atemporais e, por isso mesmo, tornam-se relevantes para os tempos atuais de hipermodernidade.

Assim, Jesus ensinou que as práticas do cristão não podem ser hipócritas. O coração do discípulo precisa centrar-se nos valores que realmente importam, a saber: os valores do reino de Deus. Viver através dos valores do reino de Deus implica em: 1. acumular tesouro no lugar certo (no Céu); 2. ter o coração voltado para o lugar certo (o Céu); 3. enxergar da maneira certa (à maneira do Céu); 4. servir da maneira certa (somente à Deus).

Por fim, após a compreensão dos valores ensinados por Jesus, compreende-se que será possível para o cristão ressignificar os princípios propostos pela hipermodernidade. Afinal, a mensagem de Cristo não pode ser vista como um conjunto de palavras que ficaram no passado. Antes, a compreensão adequada das instruções de Jesus deverá conduzir o cristão para mudanças significativas em seus pensamentos e ações, levando-o a ser um sujeito transformador do seu tempo. As palavras de Jesus através de seus discípulos hoje devem ser capazes de influenciar este mundo a viver através dos valores  do reino de Deus e não apenas pelos valores impostos pela hipermodernidade.

 

 

REFERÊNCIAS

BRAGA, PRICILLA. O processo da Hipermodernidade. Dissertação (Mestrado Filosofia)- Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2010.

CARSON, D. A. O comentário de Mateus. Tradução: Lena Aranha e Regina Aranha. São Paulo: Shedd Publicações, 2010.

CARSON, D. A. O Sermão do Monte: exposição de Mateus 5-7. Tradução: Lucília Marques. São Paulo: Vida Nova, 2018.

CHEUNG, Vincent. O Sermão do Monte. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto.  Brasília, DF: Editora Monergismo, 2011.

DOMINGUES, Glayds Silva. Os sentidos da formação humana presentes nas cosmovisões cristã e secularista e a proposta do ato educativo. Anais do Congresso Internacional da Faculdades EST. São Leopoldo: EST, v. 2, 2014. p.674-683.

DOMINGUES, Glayds Silva. Os impactos das cosmovisões na educação: em busca do(s) sentido(s). Revista Batista Pioneira, online, v. 1, n.2, dezembro/2012, p.271-281. ISSN: 2316-686X

FERRY, L. O Homem Deus ou o Sentido da Vida. Rio de Janeiro: Difel, 2007.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento. Vol. 1. Tradução: Valter G. Martins. 2ª Ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

HOBSBAWM, Eric J.  A era das revoluções: 1789-1848. Tradução: Maria Teresa Lopes Teixeira e Marcos Penchel. 23ª Ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.

KAVANAUGH, John Francis. Seguindo a Cristo numa sociedade de consumo: a

espiritualidade da resistência cultural. São Paulo: Paulinas, 1984.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Lisboa: Antropos, 1989.

LIPOVETSKY, Gilles . Os Tempos Hipermodernos. Tradução: Mário Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004.

PEREIRA, Reinaldo Arruda. A religião e o sujeito contemporâneo: celebração móvel e versátil da identidade religiosa. Revista Via Teológica. Vol. 17- número 33- junho 2016, p. 71-94.

ROBERTSON, A.T. Comentário Mateus e Marcos à luz do Novo Testamento grego. Rio de Janeiro: CPAD: 2011.

VERBICARO, Dennis; RODRIGUES, Lays Soares dos Santos. Reflexões sobre o consumo na hipermodernidade: o diagnóstico de uma sociedade confessional. Revista Direito em debate- ano XXVI nº 48, jul.-dez. 2017. pp.342-363.

 

 



[1] Esta frase é fruto de uma paráfrase efetivada a partir da expressão proferida por Jesus em João 13.34 onde está escrito: “Um novo mandamento vos dou[...]”

[2] Mestrando em Teologia. Especialista em Teologia e Interpretação Bíblica. Especialista em Estados, movimentos sociais e cultura. Bacharel em Teologia. Licenciado em História. Professor de História e Teologia na rede pública e privada de Teresina-PI. E-mail: historiacomcristo@hotmail.com

sábado, 4 de julho de 2020

CAMELO E AGULHA: O QUE JESUS REALMENTE QUERIA FALAR?



Por Jefferson Rodrigues

Acredito que o leitor já tenha tido contato com as palavras de Jesus direcionadas a um jovem rico que, teimosamente, colocava seu coração sobre as riquezas que tinha. O texto ao qual nos referimos encontra-se no evangelho de Mateus, Marcos e Lucas. Contudo, para efeito de compreensão nos deteremos na perícope que se apresenta em Mateus 19.16-26, com enfoque principal na incógnita citação de Jesus registrada no versículo 24 que diz: “E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus”. Diante desta afirmação, nos cabe perguntar: o que Jesus, de fato, quis dizer com esta expressão? Será que ele falou de agulha e camelo no sentido literal ou usou apenas de uma figura de linguagem?
I.                   AS VÁRIAS INTERPRETAÇÕES SOBRE ESTE TEXTO
a)                 Uma brecha na cidade de Jerusalém. É bem possível que o leitor já tenha se deparado com alguma explicação alegórica sobre esse texto, especialmente, a mais famosa delas, atribuída originalmente a Tomás de Aquino. Tal teoria busca explicar esse texto a partir de uma visão em que o termo “fundo de agulha” não se refere de fato a uma agulha de uso costumeiro. Segundo esta interpretação, seria uma brecha existente em muralhas das cidades antigas pelas quais os viajantes que chegassem antes do amanhecer poderiam entrar com seus animais. Em virtude dos viajentes chegarem a noite e não haver como fiscalizar a mercadoria, os vendedores deveriam deixar suas mercadorias do lado de fora da cidade e entrar com seus animais por uma estreita passagem chamada de “fundo de agulha”. As mercadorias dos viajantes deveriam ser postas de lado e os camelos só entrariam nas cidades por essa passagem ajoelhados e sem as mercadorias que trazia em seus lombos; sendo esta, portanto, uma bela alegoria para a caminhada cristã.
Esta teoria é muito atraente e até alegoricamente plausível. Contudo, não há registros arqueológicos ou mesmo literários antigos que subsidiem tal visão. Esta parece muito mais uma perspectiva alegórica, típica do método de interpretação que prevaleceu na Idade Média, não parecendo ser a ideia que Jesus inicialmente quis apresentar a seus leitores (HENDRIKSEN, 2010)
b)                 Erro de tradução na palavra camelo. A segunda teoria está vinculada a um possível erro de tradução. Segundo William Barclay (19?) os substantivos gregos “kámelos” (camelo) e Kamilos (corda grossa) teriam sido confundidos pelos copistas posteriores, e por conseguinte, estes interpretes teriam trocado, acidentalmente, a letra grega iota por omicron, pois a princípio a sonoridade das vogais gregas eram similares. Se esta teoria estiver correta, a ideia que Jesus quis passar a seus discípulos era a de que seria dificílimo para um rico entrar nos reino dos Céus, assim como seria improvável alguém conseguir passar uma corda grossa, típica de uso naval em ancoras, pelo estreito buraco de uma agulha.
Apesar de atraente, não há como subscrever tal teoria. Fazemos tal afirmação por entendermos que os textos gregos mais antigos não apresentam qualquer variação gramatical na representação do substantivo grego “Kamelos”, sendo que, somente em textos tardios foram vistos a troca de “kamelos” por “kamilos”, conforme aponta o respeitado estudioso da crítica textual Roger L. Omanson (2018) em sua obra Variantes Textuais do novo Testamento. Assim, para que a interpretação seja mais coerente, devemos privilegiar textos mais antigos em detrimento dos achados mais recentes e duvidosos. Além disso, a tradição cristã parece não concordar com tal sugestão de falha na interpretação do texto.

II.                O SENTIDO POSSIVEL DAS PALAVRAS DE JESUS
Diante do conjunto de ensinos de Jesus ao jovem rico, e apegado aos seus bens materiais, parece não ser muito difícil compreender o que Mestre realmente ensinou aos seus discípulos diante daquela oportunidade pedagógica. Desta forma, concordamos com Craig S. Keener (2019) quanto ao propósito de Jesus com esta expressão: o Mestre usou de uma hipérbole para ratificar o seu ensino, devendo ser entendido como literal tal sugestão dada pelo Senhor (HENDRIKSEN, 2010)
Linguisticamente devemos analisar que o texto grego nos apresenta a seguinte construção: “πάλιν δὲ λέγω ὑμῖν εὐκοπώτερόν ἐστιν κάμηλον (kamelon) διὰ τρυπήματος ῥαφίδος (rhaphidos)”. Para nosso estudo devemos nos concentrar nas duas palavras em destaque na sentença, a saber: kamelon (câmelo) e rhaphidos (agulha). De acordo com o léxico de Louw e Nida (2019) o substantivo kamelon refere-se a um animal de grande porte com lombo curvado, devendo, portanto, ser entendido como uma referência a um animal literal. Concordando com tal proposição temos as palavras do léxico de Marvin Richardson Vicent (2012) que aponta para um antigo ensino judaico no qual Jesus se apropriou e ensinou, de fato, a impossibilidade de uma animal de grande porte entrar pelo orifício de uma agulha. Assim, de acordo com os linguistas citados “kamelon” refere-se necessariamente a um animal de grande porte, tal qual entendemos nos dias atuais. Daí surge outra questão: seria esta agulha uma fenda da cidade?
Para responder a tal proposição iniciamos com a expressiva fala de Vincent em seu léxico: “a alegação [ de Jesus] não deve ser explicada sob a alegação de uma porta estreita que seria chamada de “fundo de agulha”(2012, p.91, v1). De acordo com os já citados Louw e Nida (2019) agulha de fato é agulha! Segundo estes autores a palavra grega “rhaphidos” trata-se de “um instrumento pequeno e fino, pontudo numa das extremidades e com um buraco na outra, usado na costura[...]”( LOUW; NIDA, 2019, p. 72); Esta tradução é corroborada após uma análise dos léxicos de Mounce(2017) e  Rusconi(2015), onde apresentam que tal substantivo refere-se a simplesmente uma agulha no sentido comum da palavra. Perceba que segundo a tradução proposta no léxico de Louw e Nida não há espaço para entender esta palavra de outra forma a não ser a literal, por

isso,
A referência a um camelo passando pelo fundo de uma agulha é um exemplo de hipérbole retórica, isto é, um exagero intencional para mostrar que o acontecimento a que se estar fazendo referência é extremamente difícil ou pouco provável de se concretizar (idem, idem, p.73)
Lançando luz a partir de fontes fora no Novo Testamento, é possível compreender que Jesus disse essa expressão pautado em um ensino Talmudico recorrente em seus dias. De acordo com A.T. Robertson a ideia da expressão usada por Jesus no versículo aqui estudado fazia parte dos ensinos judaicos “no Talmude Babilônico que tem um prové,rbio que diz que nem em seus sonhos o homem viu um elefante passar pelo orifício de uma agulha”(ROBERTSON, 2011, p.220). Esta é mesma posição do já citado Vicent (2019), assim como por Russel Norman Champlim(2015). Para estes interpretes Jesus teria substituído a figura do elefante contida no proverbio talmúdico, pelo camelo em virtude de este ser o animal de maior porte existente na Palestina. Destarte, com tal afirmação Jesus mostrava que para aqueles que estavam apegados aos bens materiais as sérias dificuldades que encontrariam para entrar no Reino dos Céus, caso não mudassem sua postura.
III.            O ENSINO DO TEXTO
Diante desta rápida exegese podemos chegar a uma conclusão que nos parece a mais plausível com todo o discurso de Jesus. Assim, ao falar para um homem de alta posição social que este deveria se desprender dos seus bens a fim de seguir ao Senhor, e, diante da negativa deste homem em deixar seu apego as virtudes terrenas, Jesus, imediatamente, mostra aos seus ouvintes que enquanto o coração do homem estiver preso aos bens terrenos, colocando-o acima do Reino dos Céus, a este seria impossível herdar a vida eterna.
É interessante observar que Jesus usa de uma imagem que apresentaria a impossibilidade de um homem ser salvo por si só, apontando para uma doutrina pouco discutida em seus dias: a Graça de Deus no processo de salvação. Diante da aparente proposta absurda de Jesus - de um camelo passar no fundo de uma agulha- os discípulos assustados se voltam para Jesus e com um tom de quase desânimo interpelam a Cristo: “quem poderá, pois, salvar-se?” (v.25). É perceptível que os discípulos entenderam a proposição de Jesus de modo literal, pois assim como é impossível um camelo (literal) passar pelo fundo de agulha(literal), igualmente seria impossível a qualquer homem (inclusive eles) salvarem-se.
Nãos obstante, Jesus aproveitou a inquietação dos ouvintes para trazer um novo e maravilhoso ensino: a salvação vem do Pai. Desta forma, como já poderíamos prever, Jesus não deixaria seus discípulos inquietos e perdidos. Por isso, o mestre aproveitando-se da oportunidade ensina-os que a salvação jamais será obra humana, mas é algo que procede do Senhor. Jesus acalma seus discípulos e os ensina que: “Aos homens é isso impossível, mas para Deus tudo é possível” (v.26). Tudo é por Ele e para Ele. Louvado seja Deus!
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A analise proposta neste texto deixa claro que Jesus aproveitou a oportunidade posta para trazer um ensino valioso sobre a salvação. O mestre fala aos seus discípulos que eles deveriam tirar o seu coração do mundo e confiar que a salvação seria providenciada por Deus. De igual modo, não há motivos históricos ou linguísticos para acreditarmos que o versículo 24 de Mateus 19 faça uma referência a qualquer coisa que não seja uma expressão hiperbólica, dita com a finalidade de dar forte ênfase na mensagem de Jesus aos seus discípulos sobre salvação e graça Divina.
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Sobre o autor: Jefferson Rodrigues é ministro do evangelho na AD do Aeroporto, em Teresina-PI. Teólogo, historiador, escritor e professor de exegese do Novo Testamento, entre outras disciplinas teológicas.

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
BARCLAY, William. Comentário bíblico de Mateus. Disponível em: < http://www.iprichmond.com/atos> acesso em 13 de jun. de 2020.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Mateus. v1. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010
LOUW, Johannes P.; NIDA, Eugene A. (ed.). Léxico grego-português do Novo Testamento baseados em domínios semânticos. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.
MOUNCE, William D. Léxico analítico grego do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017.
ROBERTSON, A.T. Comentário de Mateus e Marcos: à luz do Novo Testamento grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
RUSCONI, Carlo. Dicionário do grego do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2015.
OMANSON, Roger L. Variantes textuais do Novo Testamento: análise e avaliação do aparato critico de “O Novo Testamento grego”. São Paulo: SBB, 2018.
VICENT, Marvin Richardson. Estudo no vocabulário grego do Novo Testamento. v. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.



quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O PROBLEMA DO SOFRIMENTO HUMANO: UMA BREVE ANÁLISE.



Por Jefferson Rodrigues

Introdução


“Por que comigo SENHOR?!!!” Quantos de nós já nos pegamos fazendo esta pergunta. Parece inconcebível que num mundo governado por um Deus justo e bom pessoas que aparentemente são boas venham a sofrer. O problema do sofrimento humano é um dos pontos mais controversos dentro da doutrina cristã. Contudo, mesmo sendo difícil de compreender é impossível negar a existência do sofrimento. Bastar olhar para os desastres naturais onde vidas são ceifadas, ou para a quantidade de crimes hediondos que vemos nas grandes cidades, ou pior ainda, para o número de pessoas que vivem de modo honesto mas que mesmo assim padecem com uma enfermidade terminal. Nossa pequena mente humana não consegue digerir tais coisas e diante disso somos impulsionados a questionar a ação do criador.
A bondade de Deus e o problema do sofrimento

Em tais situações somos tentados a questionar a existência de Deus, bem como sua bondade. É por isso que antes de mais nada é preciso entender que Deus, de fato, é a essência da bondade. No Senhor Deus podemos encontrar todos os padrões necessários para que possamos entender o que de fato é ser bom. Rejeitamos a ideia de que o que para justiça humana é considerado irremediavelmente má venha a ser considerado bom aos olhos de Deus. Faço essa afirmação com base no conceito de que aquilo que nos resta de entendimento sobre o que é bom ou justo é resquício do ideal plantado pelo próprio Deus em nossa mente. Portanto, ainda que distorcido pelo pecado, temos um padrão de bondade que emana do próprio Deus. Nas palavras do grande escritor C.S.Lewis é semelhante a uma criança que tenta desenhar um círculo e não o faz com perfeição até que atinja as habilidades necessárias para tal. Contudo, ainda que informe, aquele círculo feito pela criança apresentará as características de um círculo. De igual modo, o homem pecador terá a ideia do que é bom, mesmo não podendo atingir o padrão de bondade ideal requerida pelo SENHOR.
A metáfora acima citada serve para defender que Deus em hipótese nenhuma pode ser considerado autor do mal como já foi sugerido por alguns teólogos fatalistas. Para o escritor arminiano Roger Olson, “[...] embora Deus tenha o direito e o poder de fazer o que lhe aprouver com qualquer criatura, o caráter de Deus como amor e justiça supremos tornam certos atos de Deus inconcebíveis. Entre estes estaria a preordenação do pecado e do mal[1]”. Neste ponto, podemos fazer coro com as Escrituras que afirmam categoricamente: “Deus é amor” (1 Jo 4.8). Ora, se Deus é amor, então por que ele permite o sofrimento humano?
O amor Divino e a responsabilidade humana
Para responder a esta questão quero me ater a duas situações: a amor de Deus e a responsabilidade humana. Em primeiro lugar é preciso entender que o amor de Deus não é a liberdade para que o ser humano seja feliz no sentido hedonista, ou seja, na satisfação imediata do seu prazer pecaminoso. Para começarmos esta questão é preciso esclarecer inicialmente a ideia geral do que é o Amor de Deus. Na verdade, quando amamos alguém de verdade, como por exemplo um filho, não permitimos que ele ou ela seja feliz no sentido hedonista. Sempre dizemos não, sempre impedimos que eles prossigam em direção a um precipício que venha os ferir.
Para aquele que está tendo suas vontades no momento cerceadas parece que não há amor em proibir que se alcance o prazer pleno. Isso de algum modo pode causar um sofrimento momentâneo. Não obstante, o fim desta ação é sempre o bem real daqueles que são amados. Neste sentido é imprescindível ouvirmos mais uma vez a voz de C.S. Lewis sobre o tema: “O problema de reconciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus que ama só é insolúvel enquanto associarmos um significado trivial à palavra "amor" e considerarmos as coisas como se o homem fosse o centro delas. O homem não é o centro. Deus não existe por causa do homem. O homem não existe por sua própria causa. ‘Porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas’" (Ap 4.11)[2].
Deste modo, o amor de Deus não pode ser visto como permissividade. Outrossim, o Amor de Deus também impõe limites e faz com que os homens sejam limitados em suas vontades e em razão de sermos limitados e temporais não compreendemos que aquele momento de sofrimento momentâneo é projeto de Deus a fim de ensinar seus filhos e sua criação sobre algo maior. As vezes oramos por uma cura, uma solução de problemas ou mesmo um livramento e estes pedidos não são atendidos. Devemos lembrar que em hipótese nenhuma isto implica retirar o amor Divino da equação. Na verdade, para aquele que não há limites temporais e que conhece todas as tangenciais do universo, a pronuncia de um não é um ato de sabedoria e amor que para seres limitados como nós pode parecer incompreensível no momento, contudo, sem dúvidas esconde um pensamento muito mais alto. Em tais situações só podemos pedir a Deus para que nossos corações sejam confortados e aceite sua Santa decisão.
Por último, quero falar da responsabilidade humana. Sim, Deus criou homens com liberdade de decisão. Doutra forma, não poderíamos falar em responsabilidade humana, pois como poderíamos ser culpados ou responsáveis por algo que não tínhamos outro opção a não ser cumprir “os decretos ocultos de Deus?”. Infelizmente, a liberdade humana é permeada pela influência do pecado e, portanto, sempre tenderá a práticas que desagradam o plano original de Deus. Neste caso, quando olhamos, por exemplo, para uma família que foi vítima de uma enchente em um morro do Brasil e ali morreu crianças inocentes, podemos perguntar: onde estava Deus neste acidente? Bem, é preciso entender que há a responsabilidade humana neste caso hipotético (mas muito real). Podemos responder com as seguintes indagações: quem permitiu que essa casa fosse construída nas encostas de morros? Por que não foi tomada medidas de segurança antes? A família poderia ter sido livrada deste acidente pelas ações do poder público?
Da mesma forma encontramos situações similares, ao vermos um trágico homicídio ou acidente de transporte (terrestre, aéreos ou marítimos). Em tais situações sempre haverá mortes prematuras, dor e sofrimento. Em tais casos vemos claramente a consequência do pecado, da maldade e ganância que invade os corações de homens perversos em natureza. É um ciclo que só será contido quando definitivamente todas as coisas estiverem sujeitas ao Deus Pai (1 Co 15.28) e tudo o que corruptível tomar a forma incorruptível.
Podemos refletir em cima destas questões e afirmar que muitas tragédias como essas citadas poderiam ser evitadas com ações adequadas dos homens que em razão do pecado, sempre tendem a atitudes que desagradam ao Pai Celeste. Corroborando com nossa afirmação encontramos a fala do filosofo norte americano William Lane Graig que diz: “As escrituras indicam que Deus entregou a raça humana ao pecado, e ela o tem escolhido livremente; Deus não interfere para impedir, mas deixa a depravação humana seguir seu curso (Rm 1.24, 26, 28). Isso apenas serve para tornar Deus ainda maior a responsabilidade moral da raça humana perante Deus, assim como a nossa impiedade e a nossa necessidade de perdão e de pureza moral[3]
Outro ponto que é imprescindível abordar é a forma como devemos nos portar ante o sofrimento de um povo ou de uma pessoa. Em razão de nossa mente filosófica sempre buscaremos uma razão explicita para o sofrimento inesperado pelo qual alguém esteja passando. Contudo, em momentos de dor recomendamos que você guarde suas especulações filosóficas e teológicas para si mesmo. Nada que dissermos para uma pessoa que está com seu coração ferido pela dor irá aliviar o sofrimento naquele momento. O ideal é que diante do sofrimento alheio saibamos quando nos calar e apenas orar por aqueles que sofrem. Se possível estendamos nossos braços para ajudar e abraçar aqueles que estão debaixo do julgo da dor de um sofrimento, ou como diz o pastor Erwin W. Lutzer: [...] declarações superficiais não ajudam e, de fato, ferem. Às vezes, precisamos apenas nos sentar ao lado daqueles que estão sofrendo, permitindo que saibam que nos importamos. Nesses momentos de choque e dor, nosso silencio, aliado à nossa presença demonstra afeto, acalma muito mais que ficarmos falando sobre promessas e propósitos de Deus[4]”. O que o autor enfoca é a necessidade de deixar discursos teológicos para um momento posterior, devendo no momento focar em gestos que transmitam amor aquelas vidas que estão sofrendo, demonstrando na prática o amor ao próximo ensinado por Jesus.
Considerações finais
Concluímos esta breve reflexão reafirmando: não é simples explicar a razão para existência do mal e do sofrimento. Não há uma explicação que feche todas as lacunas que surgem diante deste problema. Contudo, é importante que tenhamos em nossa mente que Deus em seus planos infinitos e insondáveis estará conosco em nossa dor. É bem provável que ele não responda às suas indagações, ou o porquê do sofrimento pelo qual você está passando, assim como foi com o personagem bíblico Jó. Não obstante, ainda que Ele não responda tenha certeza que o Senhor estará com você em todas as circunstancias. Encerro este ponto citando as palavras do escritor estadunidense Joe Coffey, em sua obra Defenda sua fé (2012): “Ele é o único Deus que abriu caminho da cruz para a alegria, de modo que suas lágrimas aqui na terra um dia se transformarão, no céu, em lágrimas de alegria. Um dia vou sentar com meu irmão mais novo, John, e riremos até que as lágrimas rolem em nosso rosto. Mas não riremos porque o céu é maravilhoso. Vamos rir porque nossas lágrimas aqui foram finalmente redimidas[5]”.

REFERENCIAL BIBLIOGRAFICO
COFFEY, Joe. Defenda sua fé: pondo por terra as gigantescas questões da apologética. 1ª edição. São Paulo: Vida Nova, 2012.
CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. 1ª edição. São Paulo: Vida Nova, 2012.
LEWIS. C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005
___________. O problema do sofrimento humano. 2ª Edição- São Paulo: Vida, 1986.
LUTZER, Erwin W. Um ato de Deus? Respostas difíceis acerca do papel de Deus nos desastres naturais. 1ª Edição- Rio de Janeiro: CPAD, 2014.
NASCIMENTO, Valmir. A razão da nossa esperança: alegria, crescimento e firmeza nas cartas de Pedro. 1ª edição: Rio de Janeiro. CPAD, 2019.
OLSON, Roger. Teologia arminiana: mitos e realidades. 1ª Edição- São Paulo. Editora Reflexão, 2013.
RODRIGUES, Jefferson. Lições de Sobrevivências. 1ª edição. Teresina: Editora Filadélfia, 2012.




[1] OLSON, 2013, p.155
[2] LEWIS, 1986, p. 24
[3] CRAIG, 2012, p.104
[4] LUTZER, 2014, p. 16
[5] COFFEY, 2012, p. 46